DEPRESSÃO

Uma das maiores pragas dos últimos anos é essa: depressão. Pior do que crocs. Pior do que funk de periferia. Pior do que usar roupa preta prá parecer descolado.

Depressão virou modinha digna de ser debatida no Fantástico. E na mídia também. Virou um indicativo de tristeza fútil e volátil. Virou indicativo pessoal e particular diante da sociedade, deixando de ser um conjunto de ocorrências e situações que um indivíduo é acometido em algum momento muito pessoal e em caráter muito particular.

Vejo, várias vezes ao dia, pessoas que atribuem depressão á acontecimentos os mais esdrúxulos possíveis… basta comprar um sapato novo e pisar na merda enquanto caminha que lá vem… “estou deprimido, pisei na merda”.

Bons tempos onde, conforme se pisava na merda, ficávamos apenas putos. Bons tempos, também, onde ganhar um belo par de chifres gerava apenas um pequeno choque de realidade… tomar contato interior diante da falta de capacidade em escolher alguém prá partilhar a vida.

Depressão virou isso… algo que complementa uma insatisfação. O chocolate acaba, vira depressão. Mas eu jamais senti ideação suicida por faltar chocolate no armário. Jamais senti anedonia por pisar em merda de cachorro na calçada. Nas anorexias que já atravessei, jamais notei que o disparo anoréxico tenha sido gerado por falta de cigarro no maço.

Depressão mata. Pisar na merda, não. Depressão é dor na alma. Pisar na merda, quando muito, seria entender que o nosso sapato é parte do nossa alma e ganhar compreensão que merda machuca a alma. Pouco provável… merda no sapato a gente limpa e já zerou tudo. Dor na alma é diferente… não sai com água e sabão.

Pisar na merda, caso ocorra de alguma maneira muito grave, pode até mesmo ser solucionada por um sapateiro… troca-se a sola do sapato e vamos em frente. Dor na alma, ao contrário, não tem sapateiro que dê jeito. Depressivos demonstram certa inteligência em procurar, numa crise, um sapateiro lá pelas bandas do paraíso ou inferno. Procuram um sapateiro que troque não a sola do sapato – troquem, sim, o corpo onde habita aquela alma que não para de sentir aquela merda chamada de DOR.

Depressão é um momento individual, muito particular, onde olhamos para aquela pessoa próxima da gente e que, pela enésima vez fica com semblante sério e nos diz com voz firme e sublime: aproxime-se de Deus. Ou de Buda. Ou do capeta mesmo. Ou de qualquer divindade. Depressão é o que nos faz pensar sobre uma resposta mais… digamos… adequada para esses comentários – eu mesmo mando enfiar tudo isso no rabo. Ou melhor, enfiar no CÚ.

Depressão é algo que nós, depressivos verdadeiros, oldschool, raízes mesmo, nos dá a determinação em criar um isolamento social. Menos pela doença em si, mas pelos comentários imbecis e idiotas que acabamos ouvindo. Em alguns momentos, procuramos solidão e isolamento menos pela depressão – procuramos solidão e isolamento para evitar imbecilidades e também para evitar algo muito escroto: discussão sobre quem sofre mais… nós, depressivos suicidas ou aquele amigo ou amiga que levou chifre no final de semana.

Pior do que os “amigos especialistas”, nós, depressivos, temos uma maldição que nos persegue: o “amigo depressivo que foi curado”. Esse tipo de “amigo”, na verdade, serve como ferramenta divina para que nós, depressivos, nos dediquemos mais ainda no rumo do suicídio. Provoca, internamente, algo que eu descrevo como um lapso de felicidade… imaginá-lo sendo esmagado por um trator de esteira, bem lentamente, enquanto assisto suas tripas abandonando o corpo e sofrendo bastante com as dores que isso possa provocar. Sim. Complicado em dizer, mas infelizmente, gera algo próximo de emoção em nós.

Nós, que vivemos distantes de divindades, religiosidades, crenças em deuses e demônios, cultuamos mesmo é medicação. Adoramos medicação prá dormir – e ficamos putos quando o efeito passa e acordamos. Adoramos medicação que nos faça atravessar o dia vivenciando o clima do FODA-SE. Nossos deuses são os laboratórios, os químicos que aparecem no rodapé das bulas. Os farmacêuticos idem. Nossos cúmplices-amigos são os balconistas de farmácia – são pessoas de grande caráter… os únicos que conforme pegam as receitas médicas nas mãos, não nos dão conselhos – só perguntam se queremos os originais ou os genéricos. Alguns até conseguem descontos prá gente.

É isso. Agora, vou lá tomar meu tarja preta. Em seguida, fazer uma prece. Prece essa que, tanto faz… pode ser prá deus ou pro diabo… o pedido, um só… venha mais um dia sem gente dando palpite sobre o que não conhece, o que não vive e o que não sofre. O bom dos tarja preta é o FODA-SE que nos permite seguir vivendo. E sofrendo enquanto a morte não vem… a gente tenta, mas… neste país de merda, nem isso a gente consegue com facilidade. Já tentei duas e nem deus e nem o diabo quiseram. Preciso descobrir alguma divindade que aceite… ou torcer prá não ter nenhum chato que tente socorrer – e frustre tudo novamente.