Vamos bater palmas!!!

Puxa vida, hein?? Grande sacada essa de bater palmas. A primeira modinha, se não estou enganado, começou no Rio de Janeiro – aplaudir pôr do sol. Uma galera aplaudindo, nas praias, o pôr do sol. Como se o evento, circunstância dos movimentos cósmicos fosse uma superprodução criada por algum gênio de efeitos especiais.

Agora o Covid-19 – também conhecido como “o novo coronavírus” – surgiu a modinha política e socialmente correta de aplaudir profissionais de saúde. Fico pensando na utilidade prática disso. Penso também na motivação para reunir pessoas para fazer isso. Afinal, não vejo motivo algum prá sair aplaudindo ninguém.

Senão, vejamos. A escolha profissional foi algo individual em cada um dos aplaudidos. Ser profissional de saúde já carrega em si mesmo a obrigatoriedade de fazer. Não vejo ninguém aplaudindo garis por limparem a sujeira que esse povo que aplaude costuma espalhar pelas ruas de São Paulo. O cara joga lixo nas ruas e de noite aplaude o médico ou a enfermeira. Deveria aplaudir o gari e ainda gritar… valeu, gari, está limpando a sujeira que eu fiz.

Entendo que ser profissional e encarar o cumprimento de suas obrigações profissionais dispensem os aplausos. Afinal, não fez algo excepcional, algo que fosse além de suas obrigações. Não. Fez o que lhe é esperado.

Eu mesmo procuro aplaudir pessoas que fazem o que vai além de suas obrigações. O gari que citei acima, por exemplo… a totalidade dos profissionais de limpeza das ruas não está ali por vontade ou escolha – estão por necessidade do momento. Estavam, em um momento, desempregados e, por motivo de necessidade, aceitaram esse trabalho para poder sobreviver e manter a própria família.

Médicos e demais profissionais da área sabem que em suas atividades profissionais, eventos como endemias, pandemias, catástrofes, acidentes naturais ou não, suas habilidades não vão além do que escolheram quando optaram por suas carreiras profissionais. Ou seja… tratar, tentar curar, tentar manter vivos os seus semelhantes.

Essa coisa de aplaudir chega a ser patética. Imaginem só… diante da construção de um muro, aplaudir o pedreiro por ter assentado um tijolo. Nada disso, afinal, assentar tijolo é sua arte profissional. Aplaudir engenheiro que projeta pontes… vamos aplaudir? Não, afinal a ponte é resultado de seu trabalho profissional, não precisa aplaudir – faz parte de seu trabalho profissional.

Nunca vi passageiros aplaudirem motorista de ônibus após um trajeto sem acidentes no percurso. E nem sempre o cara está ali, dirigindo e se estressando, por desejo e obstinação profissional. Nunca vi juiz ser aplaudido após um julgamento. Nem precisa, afinal o juiz apenas deu cumprimento ao que as leis asseguram como direitos individuais.

Fico pensando se o “novo coronavírus” afeta as ligações neuroniais das pessoas. Ou se essa coisa de aplaudir é só o efeito de um beck igual ao que ocorre nas praias no final do dia. Essa recomendação de ficar em casa, talvez, facilite a moçada a fumar unzinho e sair batendo palmas.

Fato: o covid-19 deixa visível a estupidez humana.

Vou tentar bater palmas pra minha psiquiatra na próxima consulta. Ao invés de pagar, vou bater palmas. Duvido que ela aceite. No meu entendimento, ela prefere dinheiro.

Bom, vou lá na varanda bater palmas e já volto.